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- CRIMINALIDADE

 

- PALHARES, O CANALHA

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

CRIMINALIDADE

De um fórum governamental sobre as causas do alarmante aumento da criminalidade, nasceu o Plano Nacional de Segurança Pública. Esse Plano previa que seriam tomadas várias medidas. Algumas delas, as principais, visavam os seguintes objetivos: aumento de efetivos e reaparelhamento da Polícia Federal; reforma e construção de presídios; implementação de um sistema de informações e comunicações, que integre as polícias nos níveis federal e estadual; cooperação do Governo Federal com os governos estaduais; aperfeiçoamento de normas legais e criação do Sistema Nacional de Segurança Pública.
No nosso julgamento, mais uma vez, em virtude de uma ótica distorcida por um tratamento superficial que a mídia e os diversos fóruns tem dado ao assunto, perdeu-se a oportunidade de atacar, em profundidade, uma das principais origens dos altos índices de criminalidade em nosso meio social.
Dizer-se que ela só diminuirá quando forem corrigidos os males responsáveis pela “injustiça social”, apesar de ser uma idéia “simpática” e de grande potencial de exploração política, é uma afirmação já cansada e desprovida de qualquer fundamento na realidade. Se assim fosse, os mais altos níveis de criminalidade estariam, por exemplo, na Índia, no Egito e em diversos países africanos e asiáticos, com índices de miserabilidade bem maiores que o nosso. Ao contrário, os Estados Unidos da América, o país que oferece uma das melhores condições de vida do planeta, seriam um paraíso da paz social, com baixíssimos índices de criminalidade, o que sabemos não ser verdadeiro.
Observamos que todas as medidas sugeridas atacam o problema da criminalidade, a nosso ver, de forma parcial e superficial, se bem que se possam alcançar alguns resultados, imediatos e ilusórios.
Elas destinam-se a melhorar as condições do Estado de dissuadir o criminoso do cometimento do crime, ou de puni-lo, caso o cometa. Ou seja, relacionadas a um “momento” em que o agente, ao menos, já cogitou em cometer um delito. Sua realização e efeitos encontram-se, pois, num tempo próximo à ação, em um “nível operacional” próprio do poder de polícia e da justiça. No entanto, não há qualquer esboço de medida de caráter estratégico, cujos resultados seriam substanciais, mas só observáveis no futuro.
Qual o campo de ação estratégica contra a criminalidade? A educação social (educação lato sensu).
Estamos profundamente convencidos, de que a verdadeira causa dos alarmantes índices de criminalidade está no evidente afastamento (e confusão conceitual) de nossa ética social (valores conjunturais) de qualquer preocupação com valores morais (que são permanentes), tratados pelos nossos principais formadores de opinião como sujeitos a discussão e a mudanças.
Nossos valores sociais estão dramaticamente deteriorados. Essa é a causa mediata dos altos índices de criminalidade. Cada vez mais cidadãos, sem o freio de valores morais, decidem, genericamente, que o crime ou a infração à Lei é uma solução válida e cômoda para suas aspirações e problemas existenciais. E esse pensamento atinge, indistintamente, todos os integrantes do meio social: cidadãos comuns, policiais, juízes, políticos, governantes, etc, independentemente de sua condição social.
Na sociedade americana, uma predominância quase absoluta do “ter” sobre o “ser” tem levado aquela próspera nação a uma sensível deterioração de seus valores morais. E, infelizmente, o que acontece lá reflete-se aqui, agravando dramaticamente o nosso quadro. Temos a mania cultural de copiá-los sem, no entanto, ter o embasamento socioeconômico para fazê-lo.
O que tem acontecido no Estado Brasileiro em relação ao cuidado com a moral social? Infelizmente, nada. Pior: ele tem contribuído, e muito, para a involução de nossa saúde moral. Uma importante causa dessa involução é conseqüência de uma disposição caracterizada por uma “necessária e impositiva” reação a tudo que pareça relembrar o passado totalitário que o País viveu até meados da década de oitenta.
Apesar da comprovada existência de muitos comportamentos éticos negativos em nossa sociedade, os governos evitam utilizar seus meios, que são muitos, para mudá-los, ou, quando os utilizam, o fazem de maneira inepta ou tímida. É como se temessem ser acusados de estarem tentando, “de forma antidemocrática”, “fazer a cabeça do povo”. As peças de propaganda do Ministério da Saúde, durante o carnaval, voltadas para a prevenção da AIDS, são um padrão para o estudo desse comportamento governamental. A mensagem que essa propaganda transmite é a seguinte: “viva o carnaval! vamos nos “divertir” (sentido sexual) sem limites...mas não esqueçam da camisinha!”. Quem diz isso, seminua, rebolando para o telespectador, é uma adolescente, quase uma menina.
Onde está a preocupação moral? Não podemos fingir que esquecemos que a “camisinha” não é garantia absoluta de proteção contra a AIDS ou contra uma gravidez indesejada. A mensagem não aponta como atitude perigosa e indesejável o comportamento sexual permissivo e promíscuo. Ao contrário, induz os jovens a praticá-lo, desde que “não esqueçam a camisinha”. Dessa forma, o Governo não pode ser acusado de estar se “imiscuindo na liberdade sexual de cada um”. Mas, quem resolverá as graves conseqüências sociais desse comportamento.
Que valores morais transmitem os governos, quando, evidentemente, usam o peso de seu poder político para encobrir crimes e atos reprováveis de seus integrantes? Ou quando agem de forma, sabidamente, inconstitucional, injurídica ou abusiva contra determinados grupos sociais, contando com as vantagens imediatas do ato e com as dificuldades que o cidadão terá para revertê-lo na justiça?
No mesmo sentido, pouco a pouco, fomos extinguindo, sem qualquer preocupação com a racionalidade, tudo que relembrava o “antigo regime totalitário”. Acabamos com o conteúdo escolar de “moral e cívica”, tão importante para a formação moral e cívica dos jovens; com as manifestações de civismo nas escolas, fundamentais para o despertar, na criança e no adolescente, do sentimento de inserção na Nação e na sociedade. A prática do exercício físico e do desporto nas escolas tornou-se praticamente opcional ou relegada a um plano secundário nas atividades escolares. Enfraqueceu-se um instrumento educacional importantíssimo para o desenvolvimento de qualidades como: vontade de vencer, espírito de competição, capacidade de superação, espírito de grupo, respeito ao próximo. Essas atividades educacionais passaram a ser preocupações de grupos de abnegados cidadãos, ou exploração comercial. O Estado mantém-se ausente.
Na cena internacional, ao contrário, encontramos exemplos de profundo cuidado com as qualidades morais do população.
As empresas de televisão, usando concessões do poder público, lutam por fatias do mercado televisivo, lançando mão de quaisquer meios, mesmo os que atinjam e destruam os valores sociais. Qualquer tentativa de dar-lhes limites esbarra na acusação de “inconstitucional imposição de censura”. Quando, esporadicamente, o clamor público aumenta, parte-se para acordos de “autocensura”, que são sempre “esquecidos” pelas empresas, quando torna-se necessário reverter uma perda de “fatia do mercado”. O governo a tudo assiste com indiferença. Não é isso que acontece nos países social e culturalmente avançados.
As ações e omissões descritas acima resultaram, nos últimos anos, em uma queda evidente e muito preocupante dos padrões morais de nossa ética social. E, em termos de cidadãos, num comportamento caracterizado pelo egoísmo, pela busca do prazer a qualquer custo e a pela quase total ausência de sentimento de inserção social. Essa situação é o caldo de cultura mais propício para o surgimento de criminosos.
Estamos absolutamente convencidos de que são essas as verdadeiras causas mediatas mas decisivas dos altos índices de criminalidade, sobre as quais urgem ações governamentais em nível estratégico.
É possível reverter essa situação? Claro! O Estado possui estrutura e organizações capazes de fazê-lo. Basta, vontade política, decisão, ação integrada entre governo e sociedade e, muito importante, a libertação de conceitos equivocados do que seja uma democracia.
Será trabalhoso, mas certamente valerá a pena. E não é nada que não possa ser vencido pela determinação, pela vontade, pelo patriotismo e pelo espírito público.

STELSON SANTOS PONCE DE AZEVEDO
Consultor Legislativo do Senado Federal

 

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PALHARES, O CANALHA

No universo dos personagens mais famosos de nosso maior dramaturgo _ Nelson Rodrigues _ encontramos um que é notável pela sua atualidade: Palhares, o canalha.
Sempre que, em suas deliciosas crônicas, o Nelson precisava de um ser sem escrúpulos, capaz das mais torpes baixezas, ele convocava o Palhares.
Que fato tornara Palhares famoso como canalha? Um belo dia, no escuro do corredor da casa do irmão, onde morava de favor, agarra a cunhada e lasca-lhe um lúbrico beijo forçado, no pescoço, de fazer inveja a Clark Gable em “O Vento Levou”. Mais ou menos assim, Nelson descrevia o ato vil que dera fama ao violentador de cunhadas.
Mas, a canalhice ia além. Dizia-se que Palhares contava, nos bares onde lhe fiavam a cerveja, os detalhes do ataque com minúcias lascivas e, ainda, dizia que a culpa era da cunhada que estava lhe “dando bola”. Hoje em dia, ele diria que ela lhe “dera mole”.
No Palhares, destacado ícone da mitologia nelsonrodriguiana, podemos observar a característica fundamental do canalha: nunca assumir a responsabilidade pelos seus mal-feitos. Os outros são, sempre, os culpados.
Mas, por que trago de volta à vida o espectro do Palhares? É simples! Tenho a convicção de que, de alguma forma, ele, depois de morto e enterrado com o Nelson, conseguiu fugir do inferno e apoderar-se da alma dos brasileiros.
Isso começou a ficar evidente, quando pessoas no mundo político, na imprensa e no sistema educacional brasileiro, na sociedade em geral, sem se aperceberem, começaram a render-se às teses da revolução socialista. Mais propriamente, às idéias ligadas à estratégia revolucionária da luta de classes. Mesmo aquela imensa maioria que se julgava de índole democrática.
O processo de transformação começou durante o período da Guerra Fria, quando a revolução precisava criar os antagonismos que propiciariam as condições ideais de luta. Para isso, era preciso fazer o povo brasileiro crer que os responsáveis por suas mazelas eram: “os Estados Unidos, os países ricos, o FMI, os banqueiros internacionais, os ricos, as elites, os patrões gananciosos, os latifundiários, os militares...” O povo era “a vítima imolada, diariamente, à sanha desenfreada dos poderosos”. Havia, ainda, a necessidade de se afogar os escrúpulos e a moral burguesas numa nova concepção moral revolucionária, cuja palavra de ordem, idealizada por Lenine, dizia: “os fins justificam os meios.”
Para bem conduzir o pensamento social, os revolucionários se infiltraram nas igrejas, nos sindicatos, na imprensa e no sistema educacional. Até hoje, estão lá, agora dissimulados e camuflados, após a derrocada da “pátria-mãe”. Mas, ativos.
A frase de ouro da absolvição incondicional e eterna da culpa, não por acaso é de Sartre, filósofo comunista: “O inferno são os outros.”
Ultrapassado o período de maior perigo revolucionário, é grande ainda a penetração das idéias norteadoras da revolução socialista e da luta de classe na política, na imprensa, no nosso sistema educacional e em uma grande parte de ONGs, “preocupadas com o social”. As mais destacadas estão ligadas à “luta pela reforma agrária”.
Uma grande massa de brasileiros acredita que o Brasil vive dificuldades, porque é explorado pelos americanos, pelos países ricos, pelo FMI, pelos banqueiros; que o povo é infeliz por que é oprimido pelos ricos, pelos patrões e pelas elites. A mulher sofre por causa do homem, o branco discrimina o negro e extermina o índio. E, por aí, vai. Muita gente que se julga inteligente e democrática apóia as cotas raciais no sistema educacional, sem se dar conta de que essa medida, com seu racismo implícito, gérmen da luta de classes, tende a causar a cisão social.
Em todo esse processo equivocado, está evidente a nossa fuga à responsabilidade pessoal na condução da vida e nas conseqüências das más escolhas. Cremos que estamos antecipadamente perdoados por tudo de mal que fizermos, porque, afinal, a culpa nunca estará em nós e, sim, naqueles que nos exploram e nos oprimem. Já evoluímos para incluir, entre os culpados, aqueles que nos ameaçam, que se nos opõem, que nos são antipáticos, o sistema jurídico...A Lei que nos cria entraves desnecessários, ou que achamos que não atende aos nossos interesses.
As táticas norteadoras da estratégia revolucionária da luta de classes, desenvolvidas em nosso passado recente, estão disseminadas e atuantes, ainda hoje, em nossa sociedade. Parecem sedimentadas em nossa cultura e estão na base dessa forma alienada e irresponsável de pensar e agir que nos transformou em milhões de Palhares. Independentemente de poder ou classe social.
Por isso políticos e juízes se corrompem sem pudor, executivos fraudam e roubam sem culpa, policiais extorquem e bandidos matam sem remorsos, cidadãos comuns admitem cometer pequenos delitos. O Presidente da República, diante de atos criminosos e ilegais de seus assessores diretos, ações que resultariam em seu benefício, diz que foi traído e não sabe de nada. Com a maior seriedade!
Estou convicto de que o Brasil só começará a mudar no dia em que descobrirmos que o “inferno somos nós”.

Stelson Santos Ponce de Azevedo
Consultor Legislativo do Senado Federal aposentado

 

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