CRÔNICAS
- DA
ARTE DE MONTAR... ALTIVA E NOBREMENTE
- O
ASSASSINATO DA LÍNGUA PORTUGUESA (ou brasileira?)
A ARTE DE MONTAR... ALTIVA E NOBREMENTE
Um
belo dia, fui surpreendido por um pedido de minha filha
mais moça, Patrícia, esportiva e sonhadora
menina de doze anos: _ “Papai, quero aprender
a andar a cavalo. Você me ensina?”
Sou militar, oficial da arma de infantaria, não
tão entendido em artes eqüestres, mas, poxa,
todos pensam que eu sou! Pelo menos é o que as
pessoas comuns imaginam de um militar: domínio
total, sereno e elegante sobre o nobre animal. Por isso,
respondi sem titubeios: _ “Claro, filhinha! Vou
arranjar as coisas...”
No dia seguinte, comecei a pensar, seriamente, na promessa
que fizera. Quanto mais pensava, mais meu desespero
aumentava. Dei conta de que não me lembrava mais
de nada sobre cavalos e do uso de toda aquela parafernália
de couros e metais que constituem os arreios. Eu nunca
soubera distinguir um baio de um alazão! E é
fundamental que nós, presumidos experts, nos
refiramos, com precisão, sobre essa variada nomenclatura,
sempre demonstrando domínio, erudição
e intimidade com a arte eqüestre. Afinal de contas,
pode ser que tenhamos a sorte de não sermos obrigados
a montar e essa demonstração inicial de
conhecimento poderá nos garantir a reputação.
Estava claro que, antes de me exibir em público,
teria de estudar diversos alfarrábios especializados.
Primeiro problema: não tinha a menor idéia
de onde obtê-los. Senti que minha reputação
corria sério risco.
Por sorte, consegui que um amigo da arma de cavalaria,
não sem uma inicial gozação, colocasse,
numa folha de papel, alguns conceitos, informações
e nomes básicos, que me permitiriam distinguir
uma égua de um cavalo e um barbicacho de um freio.
Enquanto isso, a situação se deteriorava,
porque a minha outra filha, Andrea, e os amiguinhos
de minhas filhas queriam assistir às aulas, aumentando,
consideravelmente, minha platéia e minha responsabilidade.
A toda hora me perguntavam quando seria o início
do curso. Início? Meu Deus! Então teria
de ser submetido àquele transe por mais de uma
vez?
Passei alguns dias estudando, escondido, aquelas anotações,
com a dedicação que um aluno de curso
de motorista estuda o código de trânsito
às vésperas do exame.
Premido pelas circunstâncias, consegui, junto
ao comando do Colégio Militar do Rio de Janeiro,
autorização para realizar equitação
recreativa, em suas instalações, nos fins-de-semana.
Marquei o primeiro evento para o sábado seguinte.
Infelizmente, o dia chegou mais rápido do que
eu queria. Apesar da beleza daquela manhã, não
sei bem porquê, minha garganta estava seca, a
respiração meio descompassada e minhas
mãos geladas. Esforçando-me para aparentar
distração, insinuei: _ “Como é
pessoal! Vamos à praia?”
A pergunta foi recebida com indignação,
dando início a um tumulto familiar. Tentara escapar
da iminente provação, mas não “colou”.
Resignado, resolvi seguir o meu destino. Já que
era inevitável, prometi a mim mesmo portar-me,
a partir de então, com a máxima dignidade
que a situação permitisse.
Lá pelas nove horas, todo o corpo discente estava
pronto para partir, alguns dos componentes acompanhados
de simpáticos e entusiasmados papais e mamães.
Ouvi Patrícia dizer a uma amiguinha gorducha:
_ “Meu pai foi campeão de salto-de-obstáculos!”
Senti uma incômoda cólica intestinal, que
acabou por retardar nossa saída por uns dez minutos.
Foi com um ar de confiança e autoridade que dei
a ordem de partida. Aquelas botas quarenta-e-quatro,
emprestadas, estavam incomodando meus pés tamanho
quarenta.
Durante a rápida viagem até o Colégio
Militar, rezei, entre-dentes, dez padre-nossos e dez
ave-marias, pedindo, fervorosamente, que a luz divina
tivesse iluminado o bom homem encarregado dos obstáculos
de salto e ele não os houvesse montado. Eu sempre
tivera um tal pavor de saltar, que chegava às
raias da histeria. Talvez, algum tombo imemorial na
infância tivesse me criado aquele trauma. Se os
obstáculos estivessem montados, algum engraçadinho,
ou engraçadinha, podia se lembrar de pedir que
eu demonstrasse minha destreza. “_Meu Deus, protegei-me!”,
pedi, então, com fervor, ao imaginar aquela hipótese.
Ao descermos a ladeira que conduz ao curso de cavalaria,
num ponto de onde se avista o picadeiro, Andrea gritou
excitada: _ “Colocaram até obstáculos!”
Com um sorriso meio besta e um bolo na garganta, murmurei:
_ “Que bom!.. ” (precisava me controlar)
Quando chegamos ao destino, já nos esperavam,
solícitos, um Sargento, e três Soldados.
Foram-nos apresentados quatro cavalões “enooormes”.
Olhei-os com altivez, esforçando-me por manter
o autocontrole. Os animais retribuíram com olhares,
nos quais identifiquei um misto de desprezo e deboche,
alguns relinchos e sinais de inquietação.
Lembrei-me de que eles reconhecem um impostor pelo cheiro.
Observei meus “alunos” e vi que alguns engoliam
em seco, olhos arregalados de medo diante daquelas bestas
descomunais e pouco amigáveis. A vontade de montar
neles, obviamente, desaparecera. Uma lourinha dentuça
balbuciou: _ “Só vou ficar vendo... ”
Andrea, com uma fisionomia tensa, exclamou: _ “Não
monto nem que me paguem! ”
Enquanto agradecia a Deus, em silêncio _ ainda,
não sabia o que o destino me reservava _, eis
que Patrícia, provavelmente traduzindo o desejo
de todos, resolveu: _ “Pai, como hoje é
o primeiro dia, a gente só assiste e você
mostra como é que se monta, tá?”
Senti um vazio na boca do estômago e compreendi
que a sorte estava lançada.
Cometi, então, o meu segundo erro. O primeiro
fora aceitar aquela empreitada. Resolvi, eu mesmo, colocar
a cabeçada no animal. Após alguns minutos
de puxões e imprecações, de minha
parte, e de irritados safanões de cabeça,
por parte do idiota do cavalo, o serviço estava
feito, mas a aparência do “roncinante”
era grotesca. Tiras de couro puxavam seu beiço
para baixo, deixando à mostra os dentes, num
ridículo esgar de riso. Uma das orelhas ficara
deitada por baixo da testeira e o olho do lado oposto,
simplesmente, sumira, encoberto por um emaranhado de
tirantes.
A reação não tardou. Sacudindo
violentamente a cabeça, o orgulhoso quadrúpede
atirou tudo longe e dardejou sobre mim um olhar de ódio.
Compreendi que, a partir daquele momento, ganhara um
formidável inimigo.
Discretamente, o Sargento recolocou de forma correta
a cabeçada e encilhou o animal, enquanto eu,
para tirar a atenção dos presentes sobre
meu fiasco e, principalmente, retardar, o maior tempo
possível, a provação por que iria
passar, discorria sobre eruditas e intermináveis
teorias eqüestres, até ser, abruptamente,
interrompido por um impaciente garoto sardento: _ “Como
é, vai montar logo ou não vai?”
Percebi um tom de desfio que não podia suportar
e parti, resoluto, em direção ao cavalo
(meu terceiro erro). Minha mulher, até então
calada, aproximou-se de mim e, demonstrando preocupação,
perguntou: _ “Você sabe, mesmo, o que está
fazendo?”
Era demais! Resolvi que mostraria a todos minhas qualidades!
Ou...Então... Não! Expulsei aqueles pensamentos
covardes e inibidores. Coloquei o pé no estribo
e, num único e viril impulso, lancei-me em direção
à sela e ...opa! Passei da sela e caí
pelo outro lado. Contornei, impassível, o imbecil
ruminante, não sem reparar que a platéia
apreciara a acrobacia, tanto que estavam todos risonhos.
A segunda tentativa foi coroada de pleno êxito.
Mal me havia equilibrado na sela, o cavalo partiu, sem
minha autorização, num trote terrível,
daqueles tão socados que parece que a gente está
com soluços. Aquele, a quem os cavalarianos chamariam
de nobre animal, na realidade era um vil quadrúpede,
evidentemente disposto a colocar em prática seu
diabólico plano de vingança.
Com aquela terrível trepidação,
meus pés saíram dos estribos e meu traseiro
começou a arder de tanto ser sovado.
Pelo canto do olho, vi que a maior parte da assistência
se instalara, encarrapitada na cerca, para melhor desfrutar
do espetáculo. Tentei endireitar-me na sela,
tomando uma posição mais elegante e colocando
no rosto um sorriso de confiança. A impressão
que tenho, no entanto, é que o máximo
que consegui foi um rictus artificial, permanente e
idiota, desses que as misses ostentam em concursos de
beleza.
Foi, então, que alguém gritou: _ “Galopa!”
O diabo do animal sabia português, porque, imediatamente,
mudou a andadura para um galope elegante e compassado
ao redor do picadeiro. A trepidação acabara,
mas eu estava sem estribos e os impulsos da nova andadura
ameaçavam lançar-me ao solo. Apertei as
pernas, o mais que pude, nos flancos do cavalo e fechei
os olhos.
Repentinamente, sem aviso, ele retornou ao trote e àquela
vibração de britadeira. Comecei a virar
na sela e a escorregar, lateralmente, até ficar
paralelo ao solo, numa posição que, do
meu ponto de observação, me parecia ridícula,
mas que fez a galera prorromper em frenéticos
aplausos, provavelmente achando que eu lhe estava brindando
com um demonstração de destreza. Juntando
todas as reservas de minhas forças, consegui
alçar-me, novamente, até a posição
vertical. Da assistência partia um apelo uníssono:
_ “Salta o obstáculo! Salta! Salta! Salta!”
Aquele animal miserável era capaz até
de saber falar. Pareceu que só estava esperando
por aquela “deixa”, para completar sua vingança.
Partiu num furioso galope em direção ao
maior obstáculo que havia. No último instante,
antes do salto, fechei os olhos novamente e ... saltei...
Senti-me leve, flutuando no ar. Parecia que estava voando.
Da platéia, elevou-se um _ “Ohhhhh!!!”
que, naquelas circunstâncias, interpretei como
sinal de admiração. Abri os olhos e olhei
para minhas pernas. Vi que não havia nenhum cavalo
entre elas. Aliás, foi a última coisa
que vi, pelo menos até enxergar, sobre mim, projetados
contra o céu, os rostos apreensivos de meus alunos
e de Patrícia, com a fisionomia carregada de
ansiedade, perguntando: _ “Papai, você está
bem?”
Lutando contra a dor que sentia nos pulmões,
na cabeça, em todo o corpo e cuspindo o saibro
úmido de urina animal que me enchera a boca e
o nariz, respondi com a máxima elegância
e naturalidade que consegui naquela situação:
_ “Claro, filhinha! Esse foi apenas um pequeno
percalço, comum na arte eqüestre.”
Ficou decidido, então, por todos os presentes,
que aquela primeira aula havia sido ótima.
A viagem de retorno para casa foi realizada num clima
de um silêncio respeitoso. Eu notava os olhares
de todos dirigidos para mim, transbordantes de profunda
admiração.
Tenho certeza que aula foi mesmo proveitosa e que preencheu
todas as necessidades de informações de
meus alunos. Haja vista que nunca mais me solicitaram
outra.
Stelson
Santos Ponce de Azevedo
O ASSASSINATO DA LÍNGUA PORTUGUESA (ou brasileira?)
Estão
assassinando a língua portuguesa a furtivos e
contínuos golpes de mediocridade. Por toda parte,
se estivermos atentos, encontramos rastros do crime
que está sendo perpetrado (Ih! Já comecei
mal).
Se tiverem a curiosidade de dar uma olhada nas páginas,
aí ao lado, no capítulo que acabaram de
ler, vão encontrar as palavras: nirvana, ápice,
hedonismo, pusilanimidade, tibiamente, luxúria,
cânones, retrógrado, nefastos, promiscuidade,
narcisismo, fúteis e resquício. A elas
devemos juntar furtivo e perpetrado, que, por descuido,
apareceram aí em cima.
Costumo submeter meus textos, antes de torná-los
públicos, ao crivo (Ih!) crítico de pessoas
de minhas relações. Experimentadas com
a “galera” em fase universitária,
essas palavras causaram profunda repulsa (Ah! Meu Deus!),
porque, para a grande maioria, eram ininteligíveis
ou pura demonstração de pernosticismo
(Ui!), que eles definiram dizendo que eu era “besta”
e metido.
Fiquei surpreso ao constatar que, também, entre
pessoas da geração seguinte, muito de
meus “provadores de texto” desconheciam
aquelas palavras (às quais, certamente, devo
agregar essas novas grifadas acima). Na verdade a ocorrência
de ignorância era menor que no grupo universitário,
mas, de qualquer forma, a chusma (Nossa!) foi expressiva.
Àqueles que me julgam “besta”, quero
dizer que sou absolutamente favorável à
gíria. Até, mesmo, ao termo chulo (Que
coisa!). A gíria enriquece a língua, dando-lhe
novas palavras e permitindo novos sentidos, significados
e significâncias às velhas. Viva a gíria!
Valeu, galera? Claro, que se for usada com moderação
e não se constitua em forma dominante ou exclusiva
de expressão.
Eu luto é contra o desaparecimento das palavras,
pelo desuso e pela substituição, desnecessária,
por vocábulos (Humm...) estrangeiros. O que acaba
gerando o efeito anterior (desuso). Esse fenômeno
empobrece e inflige (Escapou!) lesões irreparáveis
ao vernáculo (Agora, “estrumbicou”
de vez!)
Estou convicto (Será que vão compreender?)
de que há uma conspiração, em escala
mundial, visando à destruição da
nossa língua. Mas, com inequívoco apoio
de “traidores” dentro de nossas fronteiras
físicas e lingüísticas.
Desde meados do século XIX, logo após
a definitiva proibição do tráfico
negreiro, iniciou-se um ataque por meio de palavras
e expressões alienígenas de origem francesa.
Grande parte do dinheiro gasto no tráfico foi
desviada para o consumo de produtos, principalmente
franceses. A França era, para a América,
o espelho da cultura. Junto com o comércio, veio
a língua.
Esse ataque cultural persistiu até o rompimento
das hostilidades da Segunda Grande Guerra, em 1939.
Já estávamos quase falando francês,
esquecidos da língua pátria. Quem não
se lembra de todas as palavras francesas que falávamos
até a primeira metade do século XX? Há
até samba , do Nei Lopes, com quase todas as
palavras naquela língua, rememorando essa submissão
lingüística.
Levamos exatos cem anos para deixarmos de ajustar o
espartilho, por meio de fecho-“éclair”
e passarmos a fechar a braguilha com “zipper”.
Estava instalada uma nova fase da conspiração.
O inimigo solerte (Cacilda!) mudara as armas. A partir
de então, usou a língua inglesa.
Reparem numa coisa, agora, ao passar pela Avenida das
Américas (ou da América?), na Barra da
Tijuca, Rio de Janeiro, ou em qualquer bairro onde moram
pessoas de alto poder aquisitivo, nas grandes cidades
brasileiras, depois desses cinqüenta anos de anglicização:
nos “outdoors” (Puxa! Não há
um jeito de dizer isso em português?) ou anúncios
em fachadas de prédios comerciais, não
há quase nenhum que não tenha, ao menos,
uma palavra em inglês! Alguns estão, praticamente,
escritos nessa língua.
No empreendimento imobiliário, só se constroem
“Towers”, “Gardens”, “Villages”,
“Palaces”, “Parks” ou “Harbours”;
onde moramos. Não nos hospedamos mais em hotéis;
só em “resorts”.
Ninguém mais se chama Miguel ou Isabel, mas “Michael”
ou “Elizabeth”. As “Henriettes”,
as “Anettes” e os “Pierres”
se extinguiram junto com os fecho-“éclair”
dos espartilhos.
Em determinadas áreas do conhecimento, como na
computação, de nada adianta falar português.
Pior! Dessa área, importamos as regras lingüísticas
anglo-saxônicas de formação do verbo
a partir dos substantivos e passamos a “escanear”,
“deletar”, “printar” e “atachar”
coisas.
Até hoje, sempre tentei atender aos reclamos
dos meus “experimentadores de texto”, retirando,
do que escrevo, os vocábulos e expressões
julgadas “bestas” ou “ininteligíveis”.
Mas, agora, estou revoltado. Ganho minha vida, por meio
da capacidade de exprimir idéias, na minha língua,
com criatividade. Constato que, após anos de
poda vernacular, restaram-me poucas palavras para me
expressar. Sinto que vou ficar mudo. Quem sabe, em estado
de coma, porque não me sobram palavras nem para
pensar! Querem saber! A partir de agora, quem não
compreender o que escrevo, que vá procurar um
“aurélio”! Não vou, por causa
de vocês, compactuar com quem quer destruir minha
língua!
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Depois de meu desabafo, aí em cima, estive refletindo,
muito, estes dias. Acho que tive uma idéia genial
para destruir, de vez, os velhacos assassinos de nossa
língua. Observando o ambiente cultural, acho
que a “galera” pode estar com a razão.
Com poucas palavras e o auxílio de um “softer”
(Que raiva! Não é possível que
ainda não exista em português ou “brasileirês”
uma palavra que exprima isso!) “maneiro”,
pode ser possível dizer tudo o que se precisa.
Em princípio, imaginei o seguinte vocabulário
básico: oi; fui; isso aí, cara; falô;
foi mal; pô; muito; pouco; irado; é; tô;
valeu; legal; sim e não. Acentuação?
Nenhuma. As palavras serão tão poucas
que será desnecessária. Só usei,
quando escrevi o nosso vocabulário básico,
porque ainda não estamos acostumados. Jogamos,
definitivamente, a crase e o trema “pro espaço”.
Como sinais ortográficos manteremos a vírgula,
o ponto, a exclamação e a interrogação.
O resto vai “pro” lixo. Aceito sugestões.
Com essa estratégia, vamos “matar o inglês
a pau”.
Aí, cara! É muito irado! Falô!
Stelson Santos Ponce de Azevedo