EM MINHA OPINIÃO...


Até o primeiro cartel do século XX, os locais disponíveis para a discussão de idéias e opiniões eram as casas do Parlamento, as reuniões sociais, bailes, saraus, concertos, os pontos de encontro da sociedade, cafés, livrarias, parques e praças públicas, e, principalmente, o ambiente familiar. Eram abordados assuntos, tantos os surgidos na convivência social e na família, como aqueles que eram trazidos à baila pelos principais veículos de comunicação então existentes: livros e periódicos de todos os tipos, todos escritos.

No interior das casas, a família se reunia às refeições e, principalmente, à noite, após o jantar, quando, em geral todos os integrantes estavam presentes. Então, sob a doce autoridade dos mais velhos, falava-se sobre os assuntos de interesse.
Essas conversas, à luz bruxuleante das velas e, quase ao final dessa época, iluminadas por pálidas lâmpadas recém-descobertas, se estendiam até o momento em que os bocejos se tornavam irreprimíveis. As pessoas, dispondo de tempo e estimuladas pelo debate, se aprofundavam em suas idéias e opiniões. Elaboravam teses e argumentos. Defendiam, por meio de pensamento estruturado aquilo de que tinham convicção. As crianças, em meio às brincadeiras próprias de sua idade, no entanto, observavam o drama do confronto de idéias dos adultos e, de certa forma, se preparavam para a vida adulta.
Naquela época as pessoas aprendiam, desde tenra idade, a fundamentar suas opiniões. Elas eram próprias. Todos eram obrigados a elaborá-las e tê-las.

Fora da família e da escola, a única fonte de informações disponível, a mídia escrita, era inacessível às camadas mais pobres ou iletradas da população. Por outro lado, para aqueles que tinham acesso a veículos de comunicação, em sua quase totalidade, escritos, a palavra escrita carecia de informações só possíveis de completar por outras mídias, como o teatro, naquela época muito incipientes para a formação de opiniões. Essas lacunas tinham de ser preenchidas pelo raciocínio e pela discussão de idéias.

A partir do primeiro quarto desse século, ocorreu a vertiginosa expansão dos meios de comunicação. Quase juntos, surgem o rádio e o cinema. Inicialmente, esses veículos pouco contribuíam para a formação de opinião. Dedicavam-se prioritariamente à informação, à diversão e ao entretenimento. Aos poucos, no entanto, passaram a explorar a discussão de temas sociais e políticos.

Logo em seguida, no meio do século, surge a mídia que iria revolucionar a informação: a Televisão.
Como o rádio, surgiu acanhada como formadora de opinião. Mas, logo mostrou ser um poderoso instrumento na apresentação de idéias novas.

A velocidade da obtenção da informação e a capacidade de selecioná-la atingiu o seu clímax, no último decênio do século XX, com o surgimento de uma nova mídia: a Internet. A partir de então, passou a ser possível chegar à informação, de forma seletiva e quase instantaneamente.

É inegável que essa explosão das comunicações, que recebeu o impulso inicial durante o período das guerras mundiais de 1914 e 1939, e se incrementou no pós-guerra, desencadeou uma revolução, em escala mundial, na política, na economia e na sociedade. Atingiu, particularmente, os países do, então chamado, Mundo Ocidental. Atualmente, vivemos os sobressaltos de um de seus produtos mais discutidos, ao qual chamamos: Globalização.

Nesses países, de forma mais evidente, essa revolução provocou um grande salto quantitativo e qualitativo na ciência e no conforto das pessoas. Não obstante, o espetacular aumento do poder dos meios de comunicação trouxe consigo um aspecto potencialmente muito negativo que a nosso ver merece cuidadosa atenção.

Pouco a pouco, os meios de comunicação foram desenvolvendo a complexidade da informação, que passou a atingir todos os sentidos humanos. As mídias que dispõem de som e de imagem, com destaque, a televisão, o cinema e a internet, que atingem prioritariamente os sentidos da audição e da visão, utilizando-se da capacidade humana de ter sua sensibilidade estimulada por meio de sugestões, incorporaram o odor, o sabor e o sentido tátil.

Jogando, ainda, com imagem e som, agora, muito desenvolvidos pela tecnologia, esses veículos colocaram os sentimentos e as emoções humanas em suas mensagens.

Atingindo esse patamar, os veículos de comunicação, de forma isolada ou integrada, deixaram de simplesmente preocupar-se com a informação, a diversão e o entretenimento e passaram a vender desejos, idéias e opiniões, de acordo com os interesses de seus controladores.

Essa evolução é concomitante com a profunda revolução que a família e a sociedade vêm atravessando desde as turbulências do século passado. As famílias não mais se reúnem para conversar. A enxurrada de “pontos de vista” e “comportamentos” oferecidos ao “mercado”, sobre todos os assuntos e atividades humanas, tornou dispensável a reunião familiar. Não há mais tempo para conversas. Devemos nos “abastecer” continuamente, diante da televisão e do computador, de “idéias novas”.

Os pais não aconselham mais os filhos. Os meios de comunicação o fazem. Os filhos prescindem das palavras paternas. E ai dos pais que ousarem divergir dos conceitos e “verdades” disponíveis no “mercado da informação”! Diante do poder da mídia eles se sentem acuados e acovardados.

Na sociedade, as pessoas não dispõem mais de tempo e vontade para discutir, em profundidade, os assuntos que atraem sua atenção. Aliás, nem precisam. Elas consomem as opiniões, idéias e desejos que lhes são vendidos, prontos e acabados.

Imperceptivelmente, ao longo do século passado, as pessoas foram abrindo mão do processo intelectual que estruturava seu pensamento e assumindo pontos de vista e gostos que lhes foram oferecidos, sem se preocuparem mais com sua fundamentação. Já nem percebem que estão envolvidas nesse processo de manipulação.

São dois os principais parâmetros para adoção da “convicção” pessoal, fundamental para o sucesso na sociedade: a beleza da “embalagem” na qual a idéia vem envolvida, mas, muito mais decisiva, a percepção de que você, como pessoa, faz parte do grupo mais numeroso e que “comprou” a opinião, a idéia ou o comportamento tido como o mais correto, o mais “atualizado” ou o mais “progressista”. O “vencedor”!

É claro que os artistas da mídia têm formas engenhosas de fazer você crer que está no grupo das pessoas que fez ou faz a “escolha acertada” ou pensa e se comporta de acordo com o que é “politicamente correto”.

Assim, se comportam todos. Sejam cidadãos comuns, políticos ou autoridades. Ou seja, a vida das pessoas e o destino das nações passaram a depender, em grande parte, dos “vendedores” de opinião e de “formas corretas” de pensar e fazer.

Agora, “democraticamente”, todos podemos ter “sábias opiniões” sobre tudo. Devemos, apenas, cuidar de não nos afastar do grupo de “opinião majoritária”.

Para comprovar essa assertiva, basta observar, por exemplo, a prática de nossas empresas de televisão, a mídia preferida pela população de menor índice de escolaridade, que, no Brasil, constitui um número expressivo, em programas como o do “Faustão”, da “Hebe” ou do “Ratinho”. Se quizermos discutir ação governamental, entrevistamos um cantor de sucesso. Se desejamos debater conduta moral ou ética, convidamos uma atriz de novela, em evidência. Se o objetivo é discutir um fato grave ocorrido na prática política, ouvimos um jogador de futebol, um roqueiro “heavy metal” ou um cantor “funk”.

Estamos vivendo sob a escola filosófica do “Achismo Democrático”.

Dirão muitos que não haveria maior demonstração de espírito democrático!

Para eles, ter senso crítico, além de ser uma qualidade anacrônica, atrapalha o “bem estar e a felicidade geral”.

Os “idiotas” que insistem em denunciar que o “rei está nu” são rapidamente neutralizados pelo poder da mídia, ou são obrigados a se calar.

Nos países totalitários, o Estado conduzia e conduz, em benefício dos integrantes do partido dominante, o pensamento e o comportamento da população, por meio de um rígido controle da imprensa, das artes e de qualquer atividade intelectual.

Já, entre nós, uma democracia formal, onde, no entanto, as normas de direito constitucional e infraconstitucional, e, no caso, as que regulam a exploração das comunicações, não são obedecidas, ou são ignoradas, ou estão sob pressão dos grupos que exploram a comunicação e são afrouxadas.
Quem está tirando proveito do controle da opinião e da vontade do povo?

Stelson Santos Ponce de Azevedo