POESIAS

 

- MAL DE AMOR (lição de amor a um filho apaixonado)

 

- ONDE ESTOU (paradoxo da meia-idade)

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

MAL DE AMOR (lição de amor a um filho apaixonado)

Se ao respirar o ar te falta,
um frêmito que te estremece
e o coração ligeiro salta?
É de amor que tu padeces.

Se te parece a flor brejeira;
no ar perfume se exalando
e a natureza te é faceira?
Verdade é que estás amando.

Se o cheiro dela te parece
odor da rosa – a mais bela –
olhar de amor te enternece?
É porque estás gostando dela.

Se os amigos te reclamam
que sempre estás tão distraído;
teus pensamentos longe voam?
É de amor que estás perdido.

Se há melodia que te enleve,
ficando a alma em sofrimento;
não te espantes que tu deves
sofrer de amor todo o momento.

Se mesmo fraco, tu te sentes
capaz dos gestos mais audazes,
não adianta que tu tentes
negar paixão que dentro trazes.

Se a cada beijo que tu deres,
cada vez mais a alma inflama;
bendita seja entre as mulheres
a que te deu do amor a chama.

Que o amor é isso: doce, terno,
estranho; às vezes faz sobrer...
Nos faz feliz em meio ao inferno;
em meio à paz, nos faz sofrer.

Se tu não sentes o que digo,
com o amor não deixes te iludir.
Escuta bem teu pai e amigo:
o teu amor está por vir.

STELSON SANTOS PONCE DE AZEVEDO
(Cânticos Poéticos – Biblioteca do Exército – 1988)

 

Topo

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

ONDE ESTOU (paradoxo da meia-idade)

Eu me olho e não me vejo.
Em meu lugar, vejo meu pai; às vezes minha mãe.

Outras vezes, vejo alguém parecido com quem os outros dizem que eu sou,
ou com quem penso que os outros querem que eu seja;
mas não sou eu!

Olho para ele mas não me vejo,
porque tenho a consciência de que somos diferentes.

Ele não sou eu,
porque diz coisas que não penso;
deixa de dizer coisas que eu gostaria de dizer.

Quando, num relance, o vejo no fundo de um espelho,
ou seu reflexo, furtivo, numa vitrine,
noto que envelhece a cada encontro.

Mas sempre fui e sempre serei o mesmo.
Logo, não sou ele; ou sou?

Eu me olho e não me vejo.
Ele está lá e não o reconheço.

Porque, a cada vez, parece-me diferente:
uma criança, um homem, meu pai, minha mãe, meu mestre, meu amigo,
um desconhecido, um impostor...
Ele é uma legião...

Mas se existo e não sou ele, onde estou?

Stelson S. Ponce de Azevedo

 

Topo