INTRODUÇÃO
Este livro é
o resultado de minha experiência em viagens internacionais
que começaram na década de 60 do século
passado. Durante esse tempo, fui, aos poucos, evoluindo na arte
de viajar.
É claro que essa evolução tem relação
direta com meus interesses, com a motivação que
tenho ao buscar conhecimento em outros países e, é
claro, com minhas possibilidades.
Essa obra foi realizada, em princípio, de forma dirigida
àqueles que imaginam ou querem uma viagem turística
ao estrangeiro, com propósitos, ao menos, parecidos com
os meus. Logo, de início, devo, então, esclarecer
o que penso a respeito. É bem possível que outras
pessoas, fora desse universo, após a leitura, passem
a se interessar.
Em primeiro lugar, devo dizer que tenho uma fome insaciável
de conhecer outros povos e regiões do mundo. De saber
como esses povos evoluíram historicamente em seus territórios
nacionais. Como pensam? Como agem? Como sentem? Como fazem as
coisas? Para isso, quero conhecê-los em todas as formas,
cores, odores, sabores, sons e até mesmo texturas e asperezas
de seus eco-ambientes. Quero TURISMO EM TODOS OS SENTIDOS. Ou
como diz meu Camareiro Oswaldo : “Turismo histórico-geográfico-antropo-enogastronômico”.
É preciso ter uma curiosidade de criança diante
desses conhecimentos. Esse comportamento mantém nosso
espírito jovem. Em outras palavras: devemos ser mais
viajantes e menos turistas.
Uma viagem ao estrangeiro, particularmente para um brasileiro,
na fase cronicamente difícil que nossa economia vem atravessando,
é um luxo. Ela custa caro. É preciso, pois, otimizar
a relação custo-benefício. Dessa observação,
advém um primeiro princípio fundamental em minhas
aventuras por esse mundo afora: priorizar aquilo que o país
tem de único, de característico; aquilo que só
ele pode oferecer ou que oferece em melhores condições.
Viajar ao estrangeiro para descansar em resorts de luxo, para
passear em shoppings ou badalar em praias, para mim, não
tem sentido. É coisa para nouveaux riches, “ à
la Ronaldinho”, ou para quem tem tanto que está
jogando pela janela. Pode ter sentido para um nórdico
que vive o ano todo sob um céu nublado e encerrado em
habitações preparadas para protegê-los do
frio extremo.
Nosso País oferece, em condições excepcionais,
e bem mais barato, esse tipo de turismo e diversão, em
regiões com ambientes naturais, de grande beleza e diversidade
fito-zoológica, em selvas, caatingas, chapadas, praias
e montanhas. Muitas vezes, ao lado de nossa casa. Isso não
quer dizer que não possa, eventualmente, desfrutar do
prazer de estar em locais agradáveis. Minha estada, ali,
não terá, no entanto, como objetivo principal,
descansar ou fazer compras, mas conhecer o que de excepcional
o local tem a oferecer.
Por conseguinte, daria maior prioridade a uma viagem a uma vila
medieval nas montanhas portuguesas do que a uma praia do Algarve.
A uma cidade pequena, provinciana, da Espanha ou da Itália
do que a uma megalópole cosmopolita americana. A não
ser que essa cidade grande guarde um acervo histórico
ou cultural de interesse que justifique. Numa localidade com
um apreciável passado histórico, terei mais interesse
em conhecer seu núcleo histórico do que a periferia
moderna. Entre shoppings, ruas comerciais (comércio globalizado),
sítios históricos, museus, apresentações
de música e dança, o shopping e o comércio
globalizado “dançam”.
Outro aspecto importante diz respeito ao tipo de conhecimento
com que vou lidar no destino escolhido. Não tenho, particularmente,
interesse prioritário em conhecer países ou áreas
geográficas que não possuam, ou possuam muito
pouca relação com a evolução histórica
na qual estou mergulhado. Dessa forma, Bangcoc, como todo o
sudeste da Ásia, China, Tibet, Pago-Pago, etc, freqüentam
a região do exótico. Prefiro conhecê-los,
ao menos por enquanto, através do Nacional Geographic.
Considerando meus interesses próximos, conforme já
explicitados, a relação custo-benefício
em viagens a essas paragens me parece extremamente desfavorável.
Tudo isso posto, começa a ficar evidente a importância
do planejamento e da preparação necessários
a uma viagem proveitosa ao estrangeiro.
As perguntas que fundamentam o início do processo de
decisão são: O que eu quero conhecer? Qual o tempo
de que disponho? A “grana”, a “mufunfa”,
o “capim”, será sempre curto.
Eu me proponho nesta obra a repartir com os meus possíveis
leitores, meus conhecimentos sobre “COMO FAZER TURISMO
DE QUALIDADE A BAIXO CUSTO”.
PRIMEIRA
PARTE
CONDICIONANTES DO MÉTODO
E
DESCRIÇÃO DA ÁREA
CAPÍTULO
1
ARTE DE VIAJAR
Ao longo de toda a minha carreira turística no estrangeiro,
estive, em meus primeiros anos, dentro de dois contextos básicos:
“pacotes” e “viagens solo”. É
a realidade em que a imensa maioria viaja.
As vantagens principais do pacote turístico são:
segurança, conforto e existência de preços
promocionais. Mas, acaba evidenciando desvantagens que, ao longo
do tempo, se tornaram insuportáveis para mim. Quais?
Não nos levam a conhecer o que queremos. Somos obrigados
a ouvir guias contando histórias sem interesse, ou de
maneira burocrática e desinteressante. É preciso
lembrar que o bom turista estudou tudo o que pôde sobre
os países que iria visitar. Ele quer complementar seu
conhecimento com as informações que só
pode obter localmente.
Na maioria das vezes, a natureza das informações
que o guia dá não é aquela que buscamos.
Quando indagamos sobre nossas curiosidades, não é
raro que não saibam responder.
Alguns guias mais preparados, num esforço heróico,
às vezes dignos de elogios, tentam impor suas vozes à
cacofonia de vozes femininas discutindo sobre os preços
das “maravilhosas lembranças”, compradas
na última parada: “Olha só, queridinha,
essa coisinha linda que comprei pra minha sobrinha!” “Onde?
Onde?” “Ah! Lá, ao lado daquela igreja, naquela
última cidade em que paramos. Como é o nome, mesmo?”
“Ah! Sei, lá! Estava mais preocupada, comprando
esse presentinho pra mim mesma. Olha, só!” “Onde
foi? Diz!” “Numa ruazinha desse mesmo lugar.”
“Quanto foi?” “Nem te conto!” “Blá,
blá, blá...” É engraçado que
elas gostam de mostrar o que compraram só na próxima
parada. Acho que para evitar que as outras comprem as mesmas
coisas ou que possam dizer que viram mais barato.
O guia é um comandante desmoralizado que não consegue
reunir sua tropa e, por isso, tem grandes dificuldades para
cumprir horários.
O que importa é que a maior parte das pessoas parece
alheia ao interesse turístico dos locais por onde passam.
Além disso, normalmente, o tempo é muito curto
para a ambiciosa agenda de passeios.
Já sabedora da indisciplina que caracteriza seu bando,
a direção da empreitada marca horários
com antecedências exageradas, que nos obrigam a levantar
durante as madrugadas, para colocar as malas nos corredores
dos hotéis e irmos para o desjejum, com aquela cara de
sono, pedindo cama.
É claro que, na maior parte dos restaurantes incluídos
no roteiro do pacote, a comida é ruim. Não representam,
nem de longe, a enogastronomia do local. Paramos, a toda hora,
em lojas de souvenirs, que fazem parte do esquema comercial
da operadora, em detrimento do tempo útil para visitas
a locais interessantes.
É comum, chegarmos ao meio do programa do pacote extenuados
e irritados. Ficamos torcendo para que chegue logo o último
dia e possamos voltar para a nossa casinha (caminha).
Saímos do país visitado com informações
superficiais, que não permitem, realmente, conhecê-lo.
Voltamos para o nosso com a sensação incômoda
de que nos esconderam o doce.
O pacote turístico é mais indicado para pessoas
que não têm qualquer conhecimento de língua
estrangeira, são inseguras, não têm companhia
ou estão a fim de “descolar” alguma, ou têm
dificuldade de se organizar. Pode ser, também, indicado,
no caso de viagens a áreas geográficas sem estrutura
turística adequada, ou a regiões que sejam inseguras
para o turista isolado.
O segundo tipo de viagem eu chamo de solo. Apesar da denominação,
não indica viagem sozinho. Quer dizer que há um
piloto no grupo dirigindo o movimento, desligado de qualquer
companhia turística.
É adequado para o caso de haver, no grupo de viajantes
(pode ser somente uma pessoa ou um casal), uma pessoa com razoável
senso de organização. Sua grande vantagem é
a gostosa sensação de liberdade. Vou para onde
quero do jeito que quiser. Escolho minhas paradas, meus hotéis
e meus restaurantes. A liberdade é só sensação.
Porque, no menor grupo de pessoas, existem, no mínimo,
duas vontades que, muitas vezes, não coincidem.
Nessa modalidade, aquilo que era imposto no pacote, sem discussão,
pode ter que passar por desgastantes negociações.
Por isso, cuidado! Não deixe para negociar durante a
viagem. Resolva todas as pendências conhecidas antes de
viajar. É certo que surgirão outras, desconhecidas,
durante a viagem. Se esse cuidado for observado, então,
poderemos minorar os desencontros de opinião e de vontades
e gozar de razoável liberdade.
A viagem solo permite dirigir melhor o conhecimento do local
visitado. Eliminamos o que não interessa e nos concentramos
no que é relevante.
Nos anos mais recentes foi dessa forma que viajei. Só
procurava auxílio de operadoras de turismo para: reserva
de hotéis em cidades críticas na alta estação;
leasing de automóveis; compra de passagens intermodais
em alta estação; seguro de saúde para viagem
(atualmente obrigatório na área do euro).
As primeiras viagens solo que realizei, premido pela busca da
eficiência, fiz o que muitos tentam: atravessar o maior
número possível de países no tempo disponível.
Fazemos isso na esperança de conhecermos mais. É
uma ilusão.
Chegamos numa cidade horas antes de a deixarmos. Isso implica
um desgastante entra-e-sai de hotéis. Não há
tempo para desfazer as malas. E nossa mulher ou filha pode achar
que a única blusa adequada para o passeio do final da
tarde (será que vai dar? Já estamos tão
cansados!), antes do jantar, é aquela que ficou “por
baixo de tudo”. E, em seguida, esvaziam a mala em cima
da cama. O que vai impor um trabalhão para refazê-la.
Ou podem achar que não vão a lugar nenhum sem
dar “um jeito neste cabelo”. Aí, complica.
Mais, ainda, se tiverem esquecido o secador de cabelos “naquela
valise que ficou no porta-mala do carro”, lá no
parqueamento (estacionamento) subterrâneo.
Não sobrando mais tempo para o passeio de reconhecimento
à cidade, vamos diretos ao jantar. É evidente
que num restaurante das proximidades. Até, porque, pelo
adiantado da hora, não dá para aventurar mais
longe.
Próximo aos hotéis, todos os restaurantes estão,
de uma forma ou de outra, dentro do esquema de turismo do local.
E o esquema de turismo está preparado para “cozinha
internacional”. Aliás, é isso que seus filhos
(e até outros integrantes do grupo), se estiverem com
você e não forem muito bem preparados para esse
tipo de viagem, vão querer. Melhor seria o Mcdonalds.
Então, em Amsterdã, você janta uma pizza,
ou vai ao Mcdonalds, ou, cúmulo da humilhação,
come um frango xadrez “no china”. E vai dormir.
Não tenho nada contra freqüentar restaurante de
“cozinha internacional”. No meu País, claro!
Também aprecio comer em restaurantes com um grande chef.
Mas, não vou fazer isso na terra do outros, porque vai
ficar muito caro e eu não estou experimentando nenhum
sabor local. Mesmo que o prato seja tradicional do país
visitado, certamente o sabor e a apresentação
não serão aqueles desenvolvidos nos locais onde,
ainda, remanesce a cultura culinária do país visitado.
Terá o gosto e a aparência que a arte do chef der.
Essa correria, esses desencontros vão-se repetindo dia-a-dia,
até que, a partir, mais ou menos do sétimo dia,
começamos a ficar irritados e a discutir por qualquer
coisa. Um pensamento insistente, difícil de evitar, começa
a nos incomodar: “Ah, se eu pudesse voltar pra casa agora!”
Como não podemos e temos vergonha de que saibam que,
mais uma vez, “embarcamos numa canoa furada”, prosseguimos,
calados e resignados, com esse estado de espírito, até
o final da viagem.
Essa experiência desagradável nos faz evoluir.
Ficamos espertos. Ao invés de “visitarmos”
(queremos dizer “atravessarmos”) muitos países,
vamos nos fixar em quatro, talvez, três!
Parece uma idéia inteligente. Ocorre que o tempo disponível
continua sendo o mesmo. Então, em vez de atravessarmos
muitos países, somos arrastados, inevitavelmente, a querer
visitar o maior número possível de cidades. E
isso ocorre se forem dois, ou mesmo, um único país.
E aquela irritação a partir do sétimo dia
surge inexoravelmente. Fazer uma viagem de sete dias, no entanto,
deixa aqueles que, como eu, têm fome de conhecer, com
profunda frustração. Além de que, fazer
uma viagem com passagens caras, por pouco tempo, passa a ser
uma “roubada” do ponto de vista econômico.
Esses são, a meu ver, os problemas com que um cidadão,
classe média, brasileiro, se depara ao planejar e executar
uma viagem ao exterior.